“Só uma gripe com poucos sintomas ou a morte mesmo com todos os recursos médicos e tecnológicos.”

Dra. Lilian Alevato

A vida e feita de pequenos aprendizados. Nessas minhas 5 décadas de vida estudei e aprendi muito, mas não acreditava que teria o privilégio de ter uma lição tão importante quanto a realidade de uma Pandemia.

Ouvia as estórias de minha avó (que não eram estórias vividas por ela, já que havia nascido exatamente no ano da pandemia de 1918). Não ouvi falar de máscaras e cuidados…, mas sim de corpos acumulados em carroças que passavam durante a noite para recolhê-los. A percepção da realidade da época era mais relacionada com as perdas das famílias, e pouco me foi passado em relação a perdas econômicas ou movimentos políticos da época. Certamente a qualidade da informação era extremamente diferente do que temos hoje – não havia essa rapidez de disseminação de verdades e boatos.

Os anos passaram, uma onda de consumo e tecnologia invadiu nossas vidas como um tsunami, fazendo nossos dias mais práticos porém mais curtos – sem muito tempo para refletir na nossa rotina e avaliar o que queremos realmente da vivência neste planeta.

A Pandemia chegou e alterou a realidade das nossas vidas. Como médica, eu sabia o que estava acontecendo na China, mas não imaginava que seriamos tão afetados, confesso que de início eu subestimei a grandiosidade das consequências, assim como alguns governantes.

Algumas semanas antes da quarentena ser decretada, já me preparava para um possível “Estado de Emergência”.  Essa preparação se deu em torno de estabelecer prioridades e relacionar o que era realmente importante para garantir a sobrevivência em tempos de incerteza, de instabilidade.

Não era como se preparar para um furacão…continuaríamos a ter energia, internet, não haveria um desastre natural. Ficamos em casa a espera de que uma onda de contaminação passasse. Tínhamos agora um inimigo invisível com consequências indeterminadas. Só uma gripe com poucos sintomas ou a morte mesmo com todos os recursos médicos e tecnológicos. Pude observar todos esses cenários bem de perto.

Minha quarentena foi um pouco diferente. Estabeleci o isolamento social, dos filhos, do neto, dos amigos, mas continuei a trabalhar com um ritmo mais intenso do que antes. Trabalhar de casa é confortável, mas você acaba por começar mais cedo e terminar mais tarde a jornada de trabalho. A cobrança individual de uma boa performance aumenta, e como trabalho em saúde as intermináveis conference calls com autoridades sanitárias, hospitais, nursing homes passaram a fazer parte das minhas manhãs.

O resto do tempo era eu e meu marido juntos – cuidando da casa, preparando nossas refeições e avaliando o que mudaria no mundo depois dessa Pandemia. Geralmente sempre conversamos muito sobre todos os assuntos, mas durante essa fase paramos pra avaliar o que realmente era prioridade na nossa vida. Nossas conversas passaram a ser de reflexão e análise.

Nossa reflexão nos levou a projetar um mundo diferente, com menos futilidades – afinal estamos no início de uma crise econômica que não sabemos bem ao certo a magnitude. O que é realmente importante pra você? Quais seriam as nossas prioridades a partir desse momento?

A grande virada é que tomamos consciência que não temos necessidade de ter tantas coisas, temos que estar preparados financeiramente para manter nossa subsistência, alimentar nossas famílias e garantir um teto digno. O consumismo facilitado pela conveniência da disponibilidade será afetado. Não precisamos ter tantas roupas, sapatos, jóias. Para que? Passamos semanas sem usar nossas “roupas de sair”. Não precisamos ir a tantos jantares, eventos e shows, quando podemos usufruir tudo isso agora do conforto de nossas casas.

De repente via o ritmo da vida ser alterado e era hora de avaliar o que viria pela frente.

Como imagino a época

Pós Pandemia?

Aprenderemos que não podemos ser dependentes de insumos vindos de outros países -precisamos manter nossa soberania- há tempos perdida para países onde o custo de fabricação e inúmeras vezes inferior ao nosso. A lógica do mercado deverá ser reavaliada; mas como produzir pelo mesmo preço que China, Índia e alguns outros países? Esse será o dilema maior. Reorganizar a estrutura de impostos que propicie um crescimento industrial em nosso país. Certamente veremos mudanças importantes na área tributária.

A internet e suas ferramentas foram fundamentais para a continuidade das atividades no campo da Educação, Saúde e Negócios. Muitas pessoas descobriram que suas rotinas são mais eficientes quando usamos as salas virtuais – Zoom Meetings, Teams da Microsoft como exemplo.

Na saúde, a telemedicina teve seu grande impulso, já que muitos grupos médicos tiveram que se adaptar de forma emergencial ao uso da ferramenta. Sabemos agora o quanto é conveniente poder se consultar com o médico sem ter que se deslocar para o consultório e desperdiçar horas na sala de espera. Com certeza,0 veremos mais avanços tecnológicos na área de saúde com a implementação dos wearables em grande escala, possibilitando ao médico receber constantemente dados biométricos que serão anexados ao prontuário eletrônico (pressão arterial, pulso, oximetria, ritmo respiratório e algumas análises bioquímicas que já podem ser detectadas como os níveis de glicose no sangue). Poderemos prevenir muitas internações e visitas à sala de emergência com a utilização de Inteligência Artificial associada à telemedicina.

Teremos uma Medicina mais humanizada, com o diálogo entre o médico e o paciente – trocando mensagens e tendo um melhor acompanhamento clínico. E claro que as consultas tradicionais permanecerão, mas serão mais complexas – acredito que médicos terão mais tempo para cuidar dos seus pacientes.

Gastaremos menos tempo fazendo negócios. A experiência da pandemia demonstrou que reuniões virtuais são eficazes e produtivas. Muitas empresas passarão a ter seus funcionários trabalhando de casa, diminuindo custos com espaço e infraestrutura que deverão ser contabilizadas nessa reestruturação de mercado.

Finalmente mudaremos nossos hábitos e comportamento com uma atenção maior à prevenção de contaminação. Mudaremos hábitos que nos dois últimos meses deixamos para trás como abraçar, beijar tocar em tudo e todos sem o devido cuidado. Usaremos máscaras e álcool em gel como proteção básica até que tenhamos uma vacina que possa dar a devida proteção ao nosso organismo. Na verdade, acredito que a atenção à higiene e o hábito de lavar as mãos são aprendizados positivos e que devem ser mantidos mesmo depois de sermos vacinados

Muita coisa mais mudará e a humanidade terá que se adaptar a um novo estilo de vida. Espero que os valores mais importantes da vida serão sempre prioridade como o amor a Deus, a família, o respeito pelo próximo e uma sociedade com menos contrastes. Temos muito pela frente.

Que todos estejam seguros e saudáveis.

Vamos aproveitar essa nova vida!

Dra. Lilian Alevato traz mais de 34 anos de experiência em saúde nas áreas de Regulamentação, Qualidade, Gestão e Saúde Populacional. Foi diretora hospitalar liderando um grupo de mais de 80 médicos no Rio de Janeiro por 12 anos até se mudar para os EUA para continuar sua carreira na área de Regulamentação e Gestão.
Dra. Alevato concluiu seu mestrado em Administração de Negócios em Saúde na COPPEAD/John Hopkins School of Medicine  com especialização em Saúde Pública pela Escola Superior de Guerra pelo Exército Brasileiro logo após iniciando sua carreira profissional na Flórida, USA.
Dra. Alevato é especializada em Medicina Interna, Cardiologia e Geriatria possuindo ainda diversas certificações em Auditoria, Regulamentação e Gestão em Saúde pelo Board de Medicina dos Estados Unidos e do Comitê Nacional de Qualidade (NCQA)  Nos últimos 20 anos, ocupou vários cargos de liderança, como Chief Medical Officer, Chief Quality Officer, Compliance Officer e Chief Operations Officer em  grandes grupos médicos da Central Florida, liderando projetos de qualidade diretamente com o Governo Federal.
Dra. Alevato ocupa o cargo de Chefe  de Clínica e Qualidade, desde junho de 2017, no  grupo Spectrum Medical Partners -o maior  grupo de hospitalistas da Florida Central, com presença em 16 condados.