Trem bão demais, sô!

Fabio Lobo

Em apresentação impecável, o mineirim Alexandre Pires mostra por que ainda é o grande nome do samba moderno. Com o Gilson’s Music Hall lotado, o cantor e compositor marca a estreia da casa como o palco das grandes atrações brasileiras nos EUA

 

Alexandre Pires descontraiu e interagiu com o público por mais de 3 horas

A efêmera “nova arte” e seus conteúdos cada vez mais rasos permitem que um vídeo apenas bacaninha tenha 1 milhão de likes da noite pro dia. Criar uma letra oportunista ou deixar vazar um nude (ops!) até tem algum valor quando a meta é apenas aparecer. O malandro que se sujeita a rimar camarão com bacalhau, vomitando notas que insistem em bater na trave, sabe que, pra ser notado, basta um bom wi-fi e a velha melancia no pescoço –não necessariamente nessa ordem.

Mas pra crescer e se manter em evidência na música, cedo ou tarde será preciso escrever de verdade, tocar instrumentos bem, dirigir o próprio show, cantar no tom, escolher as parcerias certas, ter carisma e estrela, expandir carreira para o exterior, dormir pouco, viajar muito, estudar pra caramba, ficar longe da família, respeitar o trabalho dos companheiros e conhecer os fundamentos de um bom Marketing (ou pagar alguém que conheça). Ufa! E mesmo assim pode não dar certo. Para o Alexandre Pires, deu! E esse sucesso há muito cruzou a fronteira das Montanhas Gerais.

No Gilson’s Music Hall de Orlando, com o show “O Baile do Nego Véio”, Pires sintetizou uma carreira vitoriosa e longeva, a qual ajudou um ritmo essencialmente preto e pobre –num país onde o preconceito é tão cínico quanto a sua própria negativa de existência– a virar unanimidade nacional. Que atire a primeira pedra o baladeiro dos anos 90 que nunca cantarolou, nem que no chuveiro, trechos dos hits “Essa Tal Liberdade”, “Você Vai Voltar Pra Mim”, “Depois do Prazer” ou “Mineirinho”. Bão demais da conta, uai!

Trocando de figurino o tempo todo e amparado por uma banda que parece já ter nascido junta (com baixo e batera pirando nos contratempos e ataques), Alexandre Pires misturou ao repertório do “Só Pra Contrariar” algumas peças populares de grupos irmãos como Exaltasamba, Raça Negra, Negritude Junior e Art Popular, fazendo ainda incursões pelo axé e sertanejo que incendiaram a pista do Gilson’s. Foram mais de três horas de show numa pauleira só, com participação incansável do público de pelo menos 1,4 mil pessoas.

Eraldo Manes, publisher do Jornal B&B, encontra-se com Bia Mello, ganhadora de 1 par de ingressos, durante show de Alexandre Pires

Além da irrepreensível parte artística do evento, vale destacar alguns pontos logísticos que elevaram a nota do espetáculo. “O Baile do Nego Véio” estava marcado para começar às 19h00 e não atrasou um minuto sequer, numa bela manifestação de respeito do artista e da casa ao público presente. O som, incluindo os retornos de palco, foi ajustado para dar segurança rítmica aos músicos e garantir à plateia notas cristalinas e integrais. A Iluminação, os efeitos e o background visual estavam bem coordenados com as nuances musicais, colaborando fundamentalmente com a perfeita dinâmica da banda. A comunidade agradece. E o Gilson’s promete muito mais. Fique ligado!

 

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