Trump conversa com o Chirú

Buenas, a sabedoria do Chirú chegou aos ouvidos do Trump. Louco para entender o caso da China, o Trump quis conversar com esse tal de Chirú. A Casa Branca então solicitou ao Itamaraty uma entrevista com o Chirú. Iria buscar  no jato presidencial, hospedá-lo a preço de ouro no hotel do Trump. O Chirú só disse: “Será um prazer, mas tem de ser aqui na estância. Não deu alternativa ao Trump.

Imaginem o Donald Trump, perguntando ao Chirú o que aconteceu com a China. 

O Trump iria chegar lá nos pagos montado numa mula, pois com o terreno encharcado só com mula. O meu amigo Chirú diria, passando a cuia, com a água quentinha da chaleira, como boas-vindas, e dando um tempo para o Trump afoito e impaciente perguntar: “Well, Mister Rú, I would like to know what is going on with China, I heard that you have a lot of wisdom. Can you help me?“

O presidente americano tem essa pencha de não escutar seus assessores, e nem entendeu o apelido Chirú. Afinal, ele chamara o presidente da Coréia do Norte, frente-a-frente, de Mister Jun. Bem, o embaixador do Brasil nos Estados Unidos não fala inglês (era o filho número 2), então o tradutor providenciado pelo Itamaraty foi um tal brasileiro que mora no estado americano da Virgínia, que bota nome e apelido nos outros, xinga a mãe, mistura inglês no que diz, e não poupou o presidente americano:

“Esse paquiderme é de uma ignorância sesquipedal; Chirú, ele quer entender a China em cinco minutos. Esse é o intervalo de atenção dele ( “attention span”). Mais longo do que isso ele dispersa e termina falando sòzinho e talvez nos xingue. E ele pensa que teu nome é Chi, o sobrenome Rú, como um chinês.”

O Chirú apenas aquiesceu, de cabeça. O Chirú fala perfeitamente inglês, mas não contou para ninguém do Itamaraty, que programou a visita. Aliás, ninguém do Itamaraty perguntou, simplesmente assumiram que um gaúcho grosso da fronteira precisaria de um intérprete.

“Buenas, Mister Dônaldi, che viejo, então queres que eu te explique o que acontece do outro lado do mundo? Quer mais mate ou “ancim” tá bueno?“ Uma rodada de mate para acalmar os ânimos do Donald, que estava nervoso. O Trump segurou a cuia mas não sabia o que fazer com aquele troço.

O tradutor meio que matou a tradução, se atrapalhou todo com o castelhano e não sabia o que era o outro lado do mundo; não viu que o Chirú estava tirando sarro, mas afinal o Donald entendeu.  O Chirú tentou condensar tudo em cinco minutos. Como dizer ao presidente americano o que se passa com a China em cinco minutos?

O Chirú continuou, enquanto o tradutor acompanhava traduzindo:

“Qual é a população do teu país? 330 milhões? E a população economicamente ativa? 130 milhões? Qual o regime de trabalho, horas semanais? Quarenta? OK”

“Agora, primeiro, os chineses trabalham 12 horas por dia, seis dias por semanas. Setenta e duas horas por semana por cabeça. A China tem 750 milhões de pessoas na população econômicamente ativa. Quase seis vezes mais. E esses chineses trabalham quase o dobro de horas cada um, do que vocês trabalham. Então a grosso modo dá umas quinze vezes mais trabalho do que no teu país. Tem que gerar mais riqueza.”

“Ah, mas os americanos tem automação, robot?”

“ Os chineses também tem muita automação.”

“E o desperdício no teu país, Mister. Na China eles não desperdiçam nada, nem estêrco humano. Então, além de trabalhar e produzir muito mais, eles economizam mais que vocês.”

“Eles já passaram os americanos. O problema é tua teimosia, che viejo, em não querer ser o vice. E te agaranto, cumpadre, o perigo amarelo ainda nem atacou. É, Mister Dônaldi, os tempos estão demudados.²”

O terraplanista tentou traduzir mas complicou-se de novo no “agaranto” e no “demudados”. E traduziu “perigo amarelo” como “yellow fever.” Chirú só quieto saboreando o sarro.

“Quanto ao boicote que estás tentando: os chinas já passaram por dificuldades muito maiores do que essa. Eles tem dez mil anos de história. É claro que eles não tem medo de vocês. E vocês atacaram, quando tinham a seu dispor diplomacia, amizade, paz e parcerias. Os dois gigantes podem prosperar juntos, lado a lado.”

“E nesta guerra tarifária, os chineses chamaram teu blefe, destes o truco, eles retrucaram e foram para o vale-quatro. Aí te pegaram de quatro, Mr. Dônaldi.”

“Mister Dônaldi, porque fostes tão mula ancim?” Mais uma rodada de mate. O astrólogo suava e gaguejava. “Pois nosso vizinho era assim também, como tu. Brigava com todo mundo, porque era o tal, o maioral, etcetera e tudo, quando ele já era. O professor lá das bandas de lá (Uruguay) me disse que era um tal de Ego que flagelava esse vizinho. Bem, depois das tantas, ninguém mais queria trabalhar com ele. Esse vizinho terminou quebrando, acredite. É isso.³”

O Trump não entenderia nada, nem o tradutor, mas sei que meus leitores entenderam o Chirú.

Footnotes
¹ O Chirú é um personagem que eu criei; é o capataz de uma fazenda de gado, nos pampas gaúchos, nos fundos dos fundos das fronteiras; é o chefe de turma, que conversa com os jovens da turma, depois do churrasco de sexta-feira, depois do trabalho, e responde às inquietudes que se passam nas mentes dos mais jovens. Nessa conversa, que pode ser sobre qualquer assunto, futebol, religião, política, amor, chatice, solidão ou felicidade, o mate corre solto. O que poucos entendem, é que o mate não é para tomar: é para conversar. A rodada de mate dá tempo para as idéias voarem e pousarem.
² Esse virginiano, astrólogo, terraplanista, plagia o General Mourão Filho, o mineiro, com esse termo, ignorância sesquipedal, usado quando descrevia o seu colega de farda Arthur da Costa e Silva, o outro gaúcho.  O Chirú começa a gozar do tradutor terraplanista, que não sabe o que é o outro lado do mundo. E não sabe o que é “ancim” (assim).
³ Bandas de lá: Uruguay; doença do Ego, teimosia, já indicada pela metáfora da mula, e finalmente o Chirú fechando a conversa plagiando o Professor Pasquale Cipro Neto.

Peter Ho Peng nasceu na China e cresceu em Porto Alegre. Formou-se na UFRGS em engenharia química e na Georgia Institute of Technology (MSc e PhD).
É morador de Tierra Verde, Flórida. peterhpeng@yahoo.com

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