Um cérebro que não para de aprender

Marcio Alves

Burro velho não aprende a marchar”, diziam alguns dos meus parentes mais idosos, no meu tempo de menino. O antigo provérbio significava que, com a idade, perdemos a resistência física e começamos a resistir a quase tudo o que é novo. Noutras palavras, “quando a idade chega, já não aprendemos mais nada”. Mas, a moderna neurociência tem demonstrado que isto não é verdade não passa de uma antiga crença limitante.

Um ser humano nasce com bilhões de células cerebrais, os neurônios, muitos dos quais estão interligados através de redes neurais. À medida que a criança é exposta a certos estímulos, novas vias neurais vão sendo formadas.

Se uma criança acidentalmente toca uma superfície quente, uma nova rede neural se forma. Isto vai ajudar a alertá-la para não tocar a superfície novamente, evitando que ela se queime. Com a repetição, as redes se fortalecem. É por isso que a repetição pode ser vital no processo de aprendizagem.

Na medida em que a pessoa atinge certa idade, algumas das suas redes neurais podem se romper. Ao longo do tempo isto pode ter impacto na capacidade de recordar determinadas informações. No entanto, hoje se sabe que o próprio cérebro pode ajudar a reverter isto. E é importante saber desafiar o cérebro para formar novas redes neurais e contrariar o colapso que pode ocorrer ao longo do tempo.

As estimativas da quantidade de neurônios no cérebro humano variam muito. Na Escola de Medicina da Universidade de Stanford, em 2010, pesquisadores descobriram que um típico cérebro humano saudável pode conter até cerca de 200 bilhões de células nervosas, ou neurônios, ligados um ao outro por meio de centenas de trilhões de minúsculos contatos chamados sinapses.

Cada neurônio pode chegar a se comunicar com até 200.000 outros. Por isto se diz que o número de maneiras que a informação flui no cérebro humano pode ser maior do que o número de estrelas de todo o universo conhecido.

A comunicação entre um neurônio e outro é a base para a formação das redes neurais. Essas redes, começando a ser formadas desde a infância, são responsáveis por tarefas particulares do cérebro, como aprendizagem, reconhecimento de padrões e resolução de problemas.

Há vinte anos passados, acreditava-se que as redes cerebrais eram estáticas após o seu período de formação inicial. Pensava-se que, uma vez formadas, elas permaneciam “hard-wired” ou inflexíveis. No entanto, nas últimas duas décadas, a neurociência tem mostrado uma outra realidade: nossas redes neurais são, na verdade, adaptáveis, flexíveis e receptivas a mudanças. É o que a neurociência chama de “plasticidade cerebral”.

Durante décadas, o dogma prevalecente era que o cérebro humano adulto é essencialmente imutável, fixado em forma e função, de modo que ao atingirmos a idade adulta, ficamos presos ao que já sabemos. Sim, ele pode criar (e perder) sinapses – as conexões entre os neurônios que codificam as memórias e aprendizagem. Mas os últimos anos de pesquisas e novas descobertas têm derrubado o dogma.

Em seu lugar, veio a percepção de que o cérebro adulto mantém poderes impressionantes de “neuroplasticidade” – a habilidade de mudar sua estrutura e função, em resposta às experiências de vida. Em resumo, o cérebro pode continuar aprendendo, em qualquer idade, não com pílulas mágicas ou curas, mas com foco e treinamento disciplinado.

Por exemplo, um estudo com violoncelistas revelou que as regiões do cérebro que recebem e processarm sinais a partir das pontas dos dedos, tornam-se comparativamente muito ampliadas.

A revista New Scientist (2006/03/07) relata um exemplo real de neuroplasticidade, ocorrido com um paciente que passou 19 anos em coma. Terry Wallis, um homem de 19 anos, de Massachusetts (EUA), acordou depois de passar 19 anos em estado minimamente consciente. Quando os cientistas digitalizaram sua situação cerebral, combinando as tecnologias do seu PET (Tomografia por Emissão de Pósitrons) e DTI (Diffusion Tensor Imaging) encontraram evidências de que o cérebro de Wallis havia “desenvolvido novos caminhos e novas estruturas anatômicas completas para restabelecer conexões funcionais compensando, para o cérebro, as vias perdidas no acidente.”

Qual a importância, em sentido prático, da plasticidade cerebral? Há muitas implicações para o comportamento humano e padrões de aprendizagem. Primeiramente, o conceito de plasticidade cerebral desafia o velho ditado de que “burro velho não aprende a marchar”.

É claro que com a idade, torna-se cada vez mais difícil aprender novas coisas. No entanto, a capacidade do cérebro para se adaptar a mudanças perpetua-se ao longo da vida de uma pessoa.

Dr. Michael Marsiske, um membro da equipe de pesquisa e professor associado da Universidade da Flórida em Gainesville, afirma: “Eu acho, de forma conclusiva, que quando os idosos saudáveis colocarem esforço em aprender coisas novas, poderão melhorar a sua aptidão mental”.