Um reencontro com a Prioridade

Fabio pedala com o filho Max
Fabio Lobo

A despeito de toda tensão e incertezas, a pandemia mostrou que a felicidade pode estar mais perto do que se pensa

Tá. Há o risco de morrer, de degringolar a economia. Muitos se foram, mesmo e para sempre, sem nem se despedir. São milhares, podendo chegar a milhões de vidas a menos. Há o receio sobre o futuro, a agonia imediata de não poder sair. Há pessoas com fome. Ou agora com MAIS fome. Há a bandidagem de políticos profissionais que, vazios das mínimas noções divinas, se fazem de amadores para avacalhar com a vida das pessoas.

Nada será como antes. Na microvida, na bolha, onde comer e pensar –não necessariamente nessa ordem– são práticas compulsórias, o simples uso da máscara é, confessemos, um saco! Quem dera que o problema fosse apenas esse.

Pelo mundo, empresários, aos montes, não estão pagando os salários. Ou o aluguel do ponto. Ou as contas pessoais. O mano que vendia pastel na Oswaldo Cochrane* desde sempre, tendo, com isso, formado os filhos, de repente tá em casa, de bobeira. Isso é dramático e desolador. Possivelmente a pindaíba generalizada terá, para muitos, efeitos mais duradouros que o próprio status da covid, essa praga que oxalá logo será rebaixada de pandemia a “apenas mais um vírus”. Quem defende isolamento ou lockdown não tem o direito de menosprezar a dor de não poder faturar.

Dor que não é mais forte que a da morte. Pais, mães, filhos, irmãos… jovens e velhos, doentes e sãos. Gente que era O MUNDO de alguém, de repente foi comprar pão no domingo e morreu 15 dias depois, sem aquele último abraço, confissão ou pedido de perdão. Arrepia só de pensar! Já vou pedindo perdão a todos por este texto.

Tem a grana, mas tem a vida. E por que não tratar ambas como adulto, como homem, como gente? Quem é que “separou” os problemas, como se um fosse exclusivo de uma torcida organizada e o outro, da outra, rival? Que raios de missa, culto, reunião da macumba ou sessão de psicanálise esse povo perdeu?

Nós, nosotros, a gente (ou “agente”, como se diz na internet) estamos, sim, juntos neste barco, sendo ele uma canoa ou um iate! É desejo de TODOS ter saúde, abrir o business de manhã, passear, trabalhar, discutir política no parque –quase saindo na porrada– e depois deitar uma breja junto, às gargalhadas. Todos nós queremos e PRECISAMOS retomar isso, independentemente da solução vir do gado do bozo ou da associação protetora dos moluscos deslumbrados.

Se a ciência determinar que dá pra voltar de forma segura, vamos voltar! Se precisar mesmo ficar de molho por mais alguns meses, vamos ficar –e aí os governos têm de ter vergonha na cara pra minimizar os solavancos, como, pasmem, estão fazendo nos EUA, com estímulos e perdões. Se a tal cloroquina funcionar sem prejuízos, que seja usada. Se for mais uma maluquice, que se pare de falar disso já, para focar no próximo remédio aprovado pela ciência.

Na minha vida, o momento é de reencontro com a Prioridade. Com P maiúsculo, mesmo. Com as coisas de Deus, os Filhos, a Mulher, os Amigos, Parentes, aquele Livro grosso que estava quase relegado à posteridade. Com o Bom Senso. É uma oportunidade de quantificar o tempo que detalhes imbecis, como combinar a camisa com a calça, tomavam do meu dia. TODOS os dias. E entregar esse tempo, na totalidade, a tudo o que acredito e amo.

Durante a quarentena, Fabio experimenta nova cor no cabelo pintado pela filha Nicole

Durante a covid, senti saudade até de quem pensava não gostar. Transformei quintas em sextas. Deixei minha filha pintar meu cabelo de verde (foto). Chorei de rir com as festas virtuais entre amigos, com os lives dos sertanejos manguaçados e desafinados. Dei likes em posts fabulosos de quem um dia considerei babaca. Andei de magrela pra cacete, com o carinha amarrado atrás (foto). A bateria acústica voltou pra garagem, tá apanhando mais que nunca –esperando o grande encontro com a guitarra do Marcellão e o baixo do Waltinho. Os pequenos reparos na casa estão em dia, o rango tá mais saudável e bacana. Nem sei mais onde fica a SR-417, e o seguro me devolveu U$20 do premium por eu não estar usando o carro.

Nada disso me livra de sentir dor, sincera e diária, pelos que ficaram sem alguém ou algo importante, pelos que não podem abrir o negócio, sair à rua …ou sequer respirar por conta do vírus. E pelos que se perderam, de vez, da Prioridade.