Um velho argumento – Parte II

Como o inevitável acontece (em três partes) – O Oriente Médio (novamente) em chamas 

Peter Ho Peng

Esse argumento de antepassados de há várias gerações terem sido donos de alguma terra sem história formal de posse, é bastante antigo. Quando os mórmons tomaram à força as terras dos nativos-americanos do Estado de Utah, usaram o argumento que essas terras haviam sido originalmente colonizadas por habitantes da Galiléia, antepassados dos mórmons, que teriam sido navegadores há milhares de anos, antes dos chineses e dos espanhóis, italianos e portugueses. Depois, os nativos-americanos de Utah teriam roubado essas terras dos antepassados dos mórmons. Assim, essa nova geração de fanáticos fundamentalistas estariam simplesmente reavendo a terra de seus antepassados. Nenhuma marca de alguma cultura que não seja a nativo-americana existe em Utah, e nenhuma evidência existe de que os antigos israelitas tenham sido navegadores. Mas nada disso importa: o que importa é que a liderança mórmon doutrinou seus seguidores e justificaram moralmente suas ações militares contra os nativo-americanos. Mentira funciona; os próprios mentirosos acabam crendo nelas.

Isso foi feito não apenas em Utah, mas foi feito em toda a América, Canadá incluso. A recente declaração do ex-senador e candidato a presidente dos EEUU Rick Santorum, que os EEUU construiram uma nação a partir do zero, perpetua esse tipo de mentira e abuso.

Voltando à Palestina

Como você se sentiria se fosse despejado de sua casa, que foi a casa de seus pais, seus tios, seus avós, sob a alegação de que sua terra pertenceu, há várias gerações passadas, a judeus? Não há prova de propriedade de nenhuma parte, pois a Palestina não é um estado constituído. 

Hamas atacou em protesto. E quando Hamas atacou Israel com bombas, Israel atacou com aviões e helicópteros Apache, soltando bombas precisas, com o argumento de estarem destruindo os túneis construídos por Hamas. Os generais de Israel declararam que seu objetivo foi destruir Hamas, fazer impossível seu re-erguimento. Porém esse argumento cai por terra quando vemos o saldo dos bombardeios israelenses: mais de 50 hospitais, escolas, templos, e centenas de pequenos negócios, prédios residenciais e escritórios foram destruidos na faixa de Gaza, centro do território onde moram os palestinos. 

Plantas de desalinização de água, estações de tratamento de esgoto, todo esse tipo de infraestrutura foi destruído por Israel. Ao todo,1800 prédios foram arrasados, a maioria residências e pequenos negócios. Apenas 20% dos túneis foram destruídos.  O que Israel destruiu não foi Hamas. Foi o resto da Palestina, Israel destruiu a Faixa de Gaza inteira, inclusive o que os palestinos chamavam de Champs Elysées- a avenida com as melhores lojas e prédios em Gaza. Civis indefesos.

Durante a segunda guerra, o filho de Benito Mussolini que pilotava um avião bombardeiro se divertia bombardeando grupos de civis indefesos, chamando isso de “margarida” – a forma dos corpos espalhados em torno do ponto central da bomba, como as pétalas da flor. Eu sei o que é maldade quando vejo uma. Eu sei que os judeus fazem maldades na Palestina. Não há outro termo para descrever a ocupação, os despejos e destruições de uma civilização. Para mim é um genocídio lento, deliberado. É Terrorismo Estatal.

O médico Dr. Abu al-Ouf do Hospital al-Shifa, chefe do grupo de atendimento a vítimas do covid-19, morreu soterrado num desses bombardeios, junto com doze membros de sua família, incluindo pais, esposa e filhos adolescentes. O comando militar israelense declarou que fez o necessário para Hamas nunca mais se reerguer. Mas o que fez foi para os palestinos nunca mais se reerguer. Hamas foi o bode expiatório. A mensagem de Israel foi clara: vocês, palestinos, não valem nada, exceto para nossos pilotos desenharem margaridas no solo. Cerca de 300 civis pereceram, incluindo 66 crianças. Quem são os terroristas? A estratégia de Israel é clara. Apagar a Palestina dos mapas. O restinho que sobra no mapa da Figura 2. Na próxima edição, e no terceiro e último capítulo desta série, dissertarei sobre o que mudou nessa equação.

Figura 1. Evolução dos territórios palestinos sob ocupação militar de Israel e Figura 2. os territórios nativo-americanos sob ocupação militar dos novos americanos. 

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