Uma ordem histórica

Peter Ho Peng

Um Papa digno de ser Papa

Na Quarta-feira de Cinzas passada eu estava no Brasil, e as manchetes locais celebraram a ordem papal mais importante, na minha opinião dos últimos séculos. Papa Francisco emitiu a todas as dioceses mundiais esta ordem: colaborem totalmente com investigações de todas as delegacias em casos de pedofilia (e abusos sexuais). Abusos de poder.

Em edições passadas do JB&B (Janeiro de 2019 e Janeiro de 2020) eu escrevi que esse tema era importante demais para ter recebido até então apenas vaga e incompleta atenção do Papa. Escrevi que eram casos criminais, e que a cooperação com investigações criminais de todas delegacias mundiais era a ação que eu pensava necessária. Naqueles artigos fui pesado na crítica ao Papa. Agora preciso me retratar.

A fim de entender melhor essa ordem papal, fui na arquidiocese de Porto Alegre, a primeira no Brasil a responder à ordem papal, e me informei como essa ordem estava sendo obedecida. Uma Comissão apropriadamente nomeada de Tutelar, pois foi constituída para proteger principalmente crianças, será composta por padres, irmãs, médicos, psicólogos e psiquiatras infantis, advogados, juízes, pedagogos, professores de direito, membros da Polícia Civil e Polícia Federal, num total de 12 pessoas, 4 homens e 8 mulheres, membros da sociedade porto-alegrense. Que orgulho senti.

Fui também à Unisinos, universidade jesuíta em São Leopoldo, cidade localizada a uns 40 km ao norte da capital. Que maravilha! Não encontro palavras para descrever minha surpresa. Criada do nada, tem um campus totalmente planejado, magnífica biblioteca, com seis andares, armazenando documentos e referências raras. O restaurante universitário, ou RU, é um restaurante por quilo da mais alta categoria. Uma incubadora de tecnologia ajuda empresas em fase de start-up e empresas já andando sòzinhas a crescer. Abriga também gigantes tecnológicos mundiais que encontram na Unisinos quadros bem preparados a um custo bem menor do que aqueles de seu país de origem. Por que fui lá? Eu sabia que a decisão do Papa tinha sido difícil. Tentei entender quão dificil havia sido. É que o Papa, por ser o primeiro jesuíta em dois mil anos a chegar ao papado, deve ter entendido há muito tempo, que precisava dar essa ordem; mas como chegar ao papado? Então fui lá na Unisinos, para tentar entender o pensamento dos jesuítas. Encontrei o apoio do curador da biblioteca, que conhece essa História de primeira-mão, sendo professor de História e tendo vivido 24 anos em Roma.

A ordem dos jesuítas, fundada por Santo Ignácio de Loyola, faz o juramento de trabalhar nas fronteiras. Essas fronteiras podem ser geográficas, mas podem ser também as fronteiras da pobreza. São os missionários, fazem o trabalho de base, de campo. Como então um jesuíta passa a fazer trabalho episcopal, de diocese, como entra na hierarquia da Igreja? Um bispo superior pode dar a ordem a um jesuíta de passar ao trabalho, digamos, burocrático. O convite pode ser recusado três vezes. O quarto convite passa a ser uma ordem. Passando ao bispado, dom Bergoglio eventualmente foi Arcebispo de Buenos Aires, e depois erguido ao cardinalato, em Roma.

Apenas cerca de 1% dos bispos católicos são jesuítas. Entendam a dificuldade política. Para chegar a ser Papa, dom Bergoglio teve que fazer muitas manobras. Uma delas, que recebeu mais atenção, ocorreu durante a ditadura militar, no caso da argentina, praticante de terrorismo estatal. Conhecida era a ocupação da Plaza de Mayo por las madres, centenas de mães de desaparecidos nas mãos da ditadura. Las madres de la Plaza de Mayo caminhavam em silêncio, com um lenço branco nos cabelos. Freiras que apoiavam essas mães foram assassinadas. Padres jesuítas que simpatizavam com os oponentes da ditadura foram ordenados por dom Bergoglio a se afastar dessa oposição. Na verdade, ele fez isso não porque favorecia a ditadura, mas para proteger esses padres. Dentro da igreja havia padres e bispos que colaboravam com a ditadura, como informantes. Dom Bergoglio seguramente sabia disso, e protegeu os padres jesuítas. Sem conhecer os detalhes, muitos, como eu, criticaram o bispo Bergoglio nessa ocasião.

Foram sete anos de papado, até Francisco sentir-se forte o suficiente para emitir essa ordem papal. Eu penso que essa questão, os abusos sexuais e a pedofilia dentro da igreja, é uma questão de vida ou morte da igreja, e o Papa Francisco seguramente pensava o mesmo há muito tempo. Bento XVI tinha em sua posse um dossiê que manifestava essa mesma avaliação. João Paulo II assinou esse dossiê, em seu leito de morte, ajudado pela mão de Bento XVI. Mas Bento XVI não se sentia forte o suficiente para emitir esse tipo de ordem. Renunciou, dando início ao papado de dom Bergoglio, Papa Francisco.

Sete anos de costuras políticas, e muitas outras antes do papado, e finalmente veio essa ordem papal. Notem que a percepção de que essa ordem seria um tema de vida ou morte para a igreja desafia a Igreja Católica dos Estados Unidos, e arrisca uma cisão vertical na própria Igreja. A Igreja Americana se opõe, agora obedece, mas poderia no futuro cindir. É que aqui (moro nos EEUU) existem os lawsuits e a igreja americana poderia quebrar finaneiramente. Os americanos são os maiores doadores mundiais.

Outra observação digna de nota. Esse crime ocorre em todas as igrejas, não é exclusiva dos celibatários. Esse crime não se restringe a religiosos, ocorre em organizações como os escoteiros, e nos exércitos. A Igreja Católica até agora foi a única a dar tal ordem.

Por tudo isso, peço perdão aos meus leitores pela contundência equivocada nos artigos passados, esperando que agora a História tenha sido retificada.Viva o Papa Francisco, dom Bergoglio, um ser humano dos Pampas, homem inspirado e corajoso, que lutou uma batalha de vida inteira, pela vida de sua Igreja.