Uma velha guerra, mas uma nova guerra…Parte I

Como o inevitável acontece (em três partes) – O Oriente Médio (novamente) em chamas

Peter Ho Peng

Devido às nossas limitações de espaço, trataremos desse tema em três capítulos, e, ainda assim, todos sintéticos, pois o tema dá muito pano para mangas. No primeiro tomo, mostrarei por quê essas guerras são inevitáveis. No segundo, tentarei mostrar como os Estados Unidos criaram e mantêm esse panorama. No terceiro, mostrarei o que há de novo nesse cenário, e o que mudou nessa equação.

Como sabemos, em História nada sabemos. Segundo bem disse Harry Truman (o vice do FDR), ‘As únicas novidades que existem no mundo são aquilo que nunca nos foi contado.’ (História é escrita pelos vitoriosos.) De novo, guerra no Oriente Médio. E tudo se encaminhava para o mesmo escaninho da História quando aparentemente a equação mudou. O que mudou? Aguardem os próximos JB&B!

Como começou essa guerra? Como sabemos pelos textos bíblicos, os judeus foram expulsos do Egito, numa guerra territorial. Moisés comandou os judeus que sobreviveram caminhando 40 dias e 40 noites pelo deserto e chegando à costa, partiu o Mar Vermelho ao meio, conforme os livros sagrados, escapou da África, e iniciou os dois mil anos dos judeus vivendo em pogrom – diáspora. 

Em diáspora, conhecemos bem a perseguição que os judeus sofreram, tendo como exemplo supremo o nazismo e Auschwitz. Com o repúdio ao nazismo, e sua derrota na Segunda Guerra mundial, os judeus sobreviventes ao genocídio foram acolhidos mundialmente. E o movimento para apoiar o retorno dos judeus ao seu território histórico começou a tomar corpo. Tudo que foi feito depois da vitória dos Aliados contra o Eixo foi liderado pelos EEUU. O século XX foi o American Century, e as guerras, as ditaduras, tudo fez parte da Pax Americana. O novo estado de Israel foi a moldura de ouro desse quadro. Era a hora de voltar à sua terra histórica. O problema foi fazer isso sem negociação com os que ocupavam esse território que os judeus pensavam ser seu território original. Os americanos lideraram, financiaram e armaram o novo Estado de Israel, que se instalou nesse território, dando um chega prá lá, a cotovelada aos seus vizinhos. Cotovelada armada, pois os americanos estavam por cima do mundo, e a superioridade militar que eles deram aos judeus era infinita. Estado Ocupacionista pura e simplesmente, desde então e para a eternidade, ou até a destruição total da Palestina.

Começando com cem mil e poucos habitantes, o novo Estado de Israel foi atraindo mais e mais imigrantes, pois quem não quer voltar para sua terra? E os israelitas foram expandindo gradualmente seu território, e dando sempre um ‘chega prá lá’ aos palestinos. Imaginem agora, com uma população de quase dez milhões.  Do seu território original, Israel ocupa hoje mais de 100 vezes a área inicial, se bem que a maior parte consiste de desertos. Com esse defeito de origem, as guerras são inevitáveis. A maioria do Estado de Israel consiste de territórios ocupados à força, dada a sua grande superioridade militar. Porém a grande vantagem dos israelitas foi haver organizado um estado que funciona, ocupando territórios onde não existia um estado organizado. Armados militarmente pelos americanos, e intelectualmente por conhecimento de judeus do mundo todo, Israel prosperou tremendamente. Sim, os séculos após séculos de diáspora vão formando, geração a geração, aquela mentalidade competitiva, não fìsicamente, pois os judeus não se destacam atlèticamente em nenhum esporte, mas se preparam intelectualmente. O exemplo pinacular, é claro, Albert Einstein. O exemplo militar é o arsenal de 200 bombas nucleares que Israel detém (atualmente).

O primeiro grande esforço de Israel foi produzir alimentos no deserto. Sem água doce, Israel desenvolveu primeiro métodos de desalinização de água do mar. Mas não pararam aí. Israel é hoje um país com alto nível de educação, renda, saúde, expectativa de vida, e alto em todos os parâmetros usados para medir qualidade de vida e desenvolvimento. Na pandemia recente, serviu de exemplo. 

Mas sua formação teve um defeito de origem que nunca foi solucionado. O Estado de Israel não foi negociado. Foi feito na marra. À força militar, ocupando territórios ocupados por outro povo, os palestinos. E até hoje é mantido por força militar. O mais recente “conflito” foi precipitado pelo despejo de seis (6) famílias palestinas de suas casas geracionais para fazer lugar a imigrantes judeus. As ações de despejo são justificadas por um velho argumento: essas terras são nossas: nossos antepassados eram donos desses terrenos. Como a Palestina não é um estado organizado, tem governos disfuncionais, não possui mecanismos para contestar esses argumento israelitas. Os novos imigrantes judeus são radicais, armados e completamente identificados com o método do “chega prá lá” ou da cotovelada. A ação de despejo é de demolir totalmente o que foi construido nesses terrenos contestados, e esse foi o estopim da recente guerra entre Israel e Hamas. Hamas é o braço armado dos palestinos, e é classificado pelos EEUU como uma organização terrorista. 

Para milhões de palestinos, essa rotina da ocupação israelita faz parte da humiliação diária que o Estado ocupacionista lhes inflinge.

Muhammad Sandouka construiu sua casa há mais de 15 anos. Ele e seu filho, nascido nessa casa, demoliram essa casa, para resgatar materiais de construção depois que as autoridades israelitas decidiram que a casa deveria ser arrasada para melhorar a vista dos turistas do Templo nos arredores. O Sr. Sandouka, 42 anos de idade, instalador de cozinhas, estava trabalhando quando um inspector confrontou sua esposa com duas opções: Demolir sua casa, resgatando os materiais de construção, ou o governo de Israel iria arrasar tudo e cobrar dez mil dólares da família pelos seus custos. Assim é a vida dos Palestinos sob uma ocupação militar. Sempre sob o pesadelo da visitas das autoridades que vestem a estrela de seis pontas; o terror perene daquele “knock on the door”.

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